A menina, neta do casal, nunca separava-se deles.Varias vezes, escondida, a velha dizia que a morte estava próxima, ela podia vê-la sorrir. Dizia que a vida era boa, mas já havia partido daquela casa há alguns anos. O velho não dizia nada.
A velha, sentava-se na cadeira de balanço do alpendre descuidado, trançava os cabelos e dizia esperar alguém que nunca vinha. Quando tarde, a neta vinha trazendo a noite... Toda espera em vão mais uma vez. O velho assistia a tudo, mas não dizia nada.
A menina, todos os dias, tirava água de um poço, muito antigo, água suja, armazenada numa botija de barro, levava-a para a velha que esfregava-a nos olhos, chorava suas lágrimas impuras que misturavam-se c aquela água. O velho a bebia, e nada dizia.
O velho, dono de alguns poucos bens: a casa, pela qual vagavam sombras do passado;uma bicicleta amarela, deixada sob uma mangueira e que sem dúvida alguma, ficava mais parada do que em uso; fotos e cartas que escondia debaixo do colchão e um relógio de bolso, que de tudo talvez fosse para ele o mais útil. Amava sua esposa incondicionalmente. Sabia que sofria, por isso a deixou partir sem que dissesse ao menos uma palavra . A neta que cuidava do casal também partiu, para um '' lugar diferente '' talvez...
Seu Patek, o relógio de bolso que tinha seu nome gravado, assim como ele, havia superado as expectativas de vida. O tempo, as quedas e demais contratempos o marcaram de diversas formas, mas isso não importava, já que ele ainda marcava um tempo custoso de passar. Olhar para ele era como vê-lo num espelho. Continuava funcionando após algumas substituições ou reparações de peças. Até quando não sabia. Só sabia que podia voltar o tempo, quando à noite, dormia e deixava-me vasculhar aquele lugar vazio e sombrio que se chamava sonho. ( monique pádua )

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